Manual da mulher organizada analogicamente

Manual da mulher organizada analogicamente

Por que o papel ainda vence a tela

Por: Rebeca Trevizani

Acordar às 6h30, preparar minha V60 com o café mais superfaturado e delicioso que eu puder encontrar. Oração de joelhos, Journal de Gratidão, café na cerâmica e leitura bíblica (na minha The Purpose Book, com muitas canetinhas pra rabiscar tudo). Ler um capítulo de Uma Regra Comum e então começar o dia. Eu sei que parece profundamente performático — impossível para algumas realidades, factível para outras —, mas com certeza é o sonho de muitas!

Nem todos os dias têm essa cara. Às vezes sua vitória como mulher organizada analogicamente é vencer a tentação de vislumbrar uma tela mais uma vez, conseguir montar sua checklist na agenda, ler uma porção de versículos antes de dormir e ainda adormecer se sentindo muito cansada.

A tentação (bem real) do digital

Não posso ser uma grande hipócrita e dizer que não me sinto tentada a ter o Google Agenda todo colorido, sincronizado com o Notion, e ver toda a minha vida a um clique de distância — além de receber avisos de tarefas e reuniões no celular. É o suprassumo do imaginário de uma pessoa organizada e resolvida, que domina minuto a minuto de um dia corrido e ainda é bem-sucedida em todas as suas versões. Fala sério, quem não quer isso?
Mas a verdade é que eu não quero me tornar uma criança do iPad e perder a sensibilidade na ponta dos dedos para folhear as páginas da minha vida. E se você é uma dessas pessoas hiper organizadas com ferramentas digitais, saiba que eu te admiro muito! O ponto que quero construir é outro: hoje, na era em que vivemos, sinto que precisamos de algo verdadeiramente palpável para calibrar nossas faculdades mentais. Precisamos da bela poesia da caneta em mãos, da pausa para escrever e, quem sabe, borrar; da imperfeição de precisar apagar ou de esquecer a agenda em casa num dia corrido.

O papel é uma pausa

Escolher o papel não é escolher o atraso ou o caminho retrógrado. É escolher a pausa de todos os dias, reviver o Selah que Deus nos ensina e do qual precisamos. É decidir, no meio de uma vida que roda com mil abas abertas e notificações, que existe uma satisfação esplêndida em algo que não pisca, não atualiza e não te avisa que "seu tempo de tela aumentou 12% essa semana". O papel não compete pela sua atenção: ele só espera, se alegra se você o encontra e torce pelo dia seguinte.

O que a escrita à mão faz pelo seu cérebro (e pela sua fé)

Escrever à mão te obriga a esperar o pensamento se formar antes que ele vire palavra — diferente do digitar, que já corrige, sugere, termina a frase por você. É um exercício quase estranho hoje: forçar o cérebro a se esticar, pegar a caneta esquecida no fundo do estojo de florezinhas antigas, aceitar que a letra vai sair torta em alguns dias e linda em outros. Escolher as imperfeições, o borrão de tinta, a linha que não ficou reta, a página que você errou e não tem "Ctrl+Z", porque são elas que provam que uma pessoa de verdade esteve ali, pensando, devagar, com o corpo inteiro envolvido no processo.

A memória que só o papel guarda

E tem as cores. Ah, as cores... minhas favoritas! As canetinhas, os marca-textos, a página que vira um pequeno vitral de grifos porque aquele versículo doeu bonito naquele dia. Um feed não guarda isso do mesmo jeito: ele rola, e você esquece. O papel fica. Ele permanece, é fiel nos dias maus e nos lembra do que já vivemos um dia. Você pode voltar, folhear, encontrar a data em que orou por algo que hoje já foi respondido e lembrar que sua caligrafia também é sua história.

Não precisa ser perfeita, só precisa voltar

E quem sabe o manual seja exatamente esse: não ser nada linear, ter dias e dias de dificuldade para manter a constância, mas continuar voltando. Pode ser que você queira, sim, pegar o caminho mais curto — e tudo bem, ninguém é de ferro! Mas vale tentar nadar contra a maré que nos empurra para caminhos facilitados que, apesar de mais leves, podem nos roubar a beleza; nos dar mais "tempo", mas nos roubar o fascínio e o propósito.

Digital e analógico podem conviver — só reserve um espaço para o papel

No final, é sobre incentivar a poesia de uma vida que tenha um pedaço analógico. Não é sobre abandonar o digital — ele tem seu lugar, sua eficiência, sua agenda sincronizada que eu também invejo às vezes. É sobre guardar um espaço onde o tempo anda mais devagar, de propósito. Onde organizar-se não é otimizar cada minuto, mas dar ao pensamento o direito de demorar, de levar o tempo que precisa e revelar memoriais em cada detalhe, seja na agenda, no planner, na Bíblia ou no journal.
Então, se às 6h30 de amanhã sua realidade for o journal, a caneta e o café superfaturado, ótimo. Se for o despertador que toca pela terceira vez e um versículo lido correndo antes de sair de casa, lindo também! A mulher organizada analogicamente não é uma categoria que se alcança; é uma escolha que se repete, página após página. E o Senhor, como sempre, está lá para todas as nossas versões.

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